Jovens contemporâneos: reflexões atuais

Felipe Trotta

Resumo


A coletânea Culturas juvenis no século XXI, organizada por Silvia Helena Simões Borelli e João Freire Filho apresenta 16 ensaios de pesquisadores sobre o tema da juventude em contextos urbanos atuais. Destaca-se, no conjunto da obra, uma notável pluralidade de objetos e de abordagens das práticas culturais da chamada “condição jovem”, apresentando debates teóricos sobre a juventude quase sempre apoiados em extensas pesquisas empíricas. Por meio de “análises sistemáticas de variados aspectos do circuito de produção e apropriação cultural juvenil” (p. 7), o leitor é convidado a refletir sobre os diversos usos e práticas culturais associados à juventude, reconhecendo suas complexidades, dilemas e riquezas. Assim, a música (tema abordado em quase um terço dos artigos), o grafite, o audiovisual, os best-sellers literários, a internet e os celulares se tornam objetos de análise, com os quais os jovens articulam modos de pertencimento perpassados por sua condição etária e pelas diversas formas de violência e incertezas a que são expostos. O texto de apresentação da
“orelha”, com a ilustre assinatura de Guillermo Orozco Gómez, já aponta para as “marcas singulares” das novas gerações, “manifestas em sons, imagens e palavras propagadas pela música, pelos muros, indumentárias
e adereços, telas de computadores, celulares, TVs e pelas comunidades de fãs”.
O artigo de abertura, do influente pesquisador Jesús Martín-Barbero, intitula-se “A mudança na percepção da juventude: sociabilidades, tecnicidades
e subjetividades entre os jovens”. Nesse texto, Barbero apresenta uma releitura dos significados da “condição juvenil”, que se caracteriza por um “excesso de tempo livre” e pela “longa ‘fila de espera’ para encontrar
trabalho” (p. 16). Sua análise baseia-se em diversos estudos sobre práticas culturais dos jovens, definidos como “sujeitos íntima e estruturalmente mediados por suas interações pela e com a tecnologia” (p. 22). A manifesta preferência pelo uso coletivo do computador em cibercafés (em
detrimento de usos privados ou escolares) é um exemplo da dimensão social e do caráter coesivo do uso das tecnologias na construção das subjetividades jovens. “Navegar em grupo” (p. 19), “compartilhar músicas” (p. 22) e produtos audiovisuais (p. 14) são modos de articular uma “experiência sensorial” (p. 29) afirmativa de uma condição jovem, em latente tensão com uma sociedade que dela desconfia e, muitas vezes, rejeita. Após o ensaio inaugural, os organizadores da coletânea assinam seus respectivos artigos “Retratos midiáticos da nova geração e regulação do prazer juvenil” e “Cenários juvenis, adultescências, juvenilizações: a propósito de Harry Potter”. No primeiro, João Freire Filho reivindica que, contrariando a tendência de serem abordadas como “fenômenos biológicos”, a adolescência e a juventude devem ser encaradas como “artefatos de governabilidade, constituídos e operacionalizados na intersecção de discursos políticos, acadêmicos e mercadológicos” (p. 37). Seu texto aborda a relação desconfiada dos “adultos” com relação aos “jovens” desde 1770, fortemente atravessada por uma certa noção de rebeldia divulgada em livros, filmes, músicas e revistas (p. 33-35). Em oposição a esses discursos, o autor identifica a emergência da figura da adolescente bem comportada em revistas femininas juvenis (como Seventeen, Capricho e o caderno especial Veja Jovens, de agosto de 2003), que visam uma construção de consumidores(as) idealizados(as) e igualmente estereotipados (p. 39). A associação entre jovens e consumo estabelece uma espécie de cilada conceitual que tende à regulação dos prazeres juvenis e à sua adequação ao universo consumista, ambos criticados pelo autor. No ensaio sobre a série literária Harry Potter, Silvia H. S. Borelli discute a hipótese de um “vazamento das fronteiras” (p. 61) entre os universos de leituras dirigidos aos segmentos adulto e juvenil e suas implicações na complexificação do universo de consumo jovem. Tal vazamento é responsável por um tensionamento na própria concepção de juventude “concebida, do ponto de vista teórico, de forma parcial e excludente, ora como uma categoria universal, constitutiva do imaginário contemporâneo, ora como um problema particular dessa ou daquela classe social”, etnia ou gênero (p. 69). Assim, a série aponta para o engessamento causado por uma definição de juventude estritamente fundada no consumo massivo, destacando que processos como juvenilização e adultescência – “a possibilidade de permanecer jovem, não importa de onde se tire tal modelo de juventude” (p. 75) – atravessam os significados e as práticas culturais identificadas como “jovens”.

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DOI: http://dx.doi.org/10.18568/cmc.v6i15.152

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